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PARA O INTERNALTA (sobre a idiotice do mundo)

Certa vez, escrevi uma frase que diz o seguinte: "A idiotice no mundo é tão generalizada que, quando aparece alguém que discorda da ignorante maioria, essa pessoa logo costuma ser taxada de louca ou anormal".

Um querido leitor (querido mesmo, sem ironias, gosto muito de dialogar com os leitores e respeito todo mundo, até porque eu mesma sou uma leitora comum) comentou a frase acima da seguinte forma:

"02/07/2010 13:33 - Internalta *
Hum.. ae mora o perigo. De quem é a ignorância? sua ou da pessoa? julgar é um ato impensando, o certo é que deve ser imparcial, pois como julga o ignorante ele julga como anormal, a sabedoria é não importar, pois ao passo que importa você torna igual ao outro, ao colocar frases assim expõe seus defeitos e a não compreensão dos defeitos dos outros, como pode falar de defeitos e criticar os dos outros? o certo é não criticar, o pensamento seria correto se a palavra idiotice e ignorância fosse tirada da sua raiva e trocada pela doce sabedoria do entendimento.
Para o texto: A IDIOTICE DO MUNDO... (T2353202)"

Bom, como gosto muito de escrever, não me custa nada explicar o contexto da frase, sem qualquer raiva ou ressentimento, mas simplesmente pelo prazer de dialogar. Escrevi essa frase logo após ler um texto muito bom sobre Galileu, o cientista italiano que foi julgado pela Inquisição, durante a Idade Média, por ter afirmado que a Terra girava em torno do Sol, e não o contrário, como a maioria acreditava na época. O referido cientista, Galileu, foi em sua época visto por muitos como louco herege, por explicar um pensamento, que hoje soa óbvio, de que a Terra gira em torno do Sol.  A Inquisição da época queria queimá-lo por esse motivo e ele acabou refutando sua própria teoria para não morrer.

No século XXI, é óbvio que não temos uma Inquisição como na Idade Média, que costumava queimar as pessoas por discordarem dos pensamentos majoritários. Mas ainda temos outros tipos, mais ou menos sutis, de "Inquisição". Para dar um exemplo bem simples, experimente entrar num bar cheio de torcedores fanáticos, em pleno final de um campeonato, e dizer que você odeia futebol. Você está indo contra a maioria. Como você pensa que eles reagirão ? Pelo calor dos ânimos, é possível que ocorra até uma briga física em virtude dessa simples frase. Eu particularmente gosto de futebol, mas por que desrespeitar alguém que não gosta, ou por que, ainda, discutir por isso ? Cada um tem o pleno direito de gostar ou não de qualquer coisa.

Nesse sentido, eu coloquei a expressão "ignorante maioria" na frase não como forma de ofensa, mas como forma de dizer que a maioria (e obviamente, não estou querendo dizer todas as pessoas), pode ser muito injusta com os indivíduos que pensam e vivem de forma contrária. O adjetivo "ignorante" está no sentido de não compreender. A grande questão é saber respeitar as diferenças. E pensar, amigos, é direito inalienável de todo ser humano. Inclusive, o que seria dos escritores sem o direito à livre manifestação do pensamento ?


A grande beleza de escrever está justamente na liberdade de expressão, o ato de transmitir o que se pensa, o que se sente, incluindo a coragem de muitas vezes se opor às injustiças do mundo.

Assim, realizar críticas à realidade injusta também faz parte da atividade literária e artística, em geral. Foi por essa liberdade de expressão que muitas pessoas morreram durante as ditaduras militares ou governos autoritários, em vários países, de várias épocas.

Considerando a História Geral, eu penso sim que o mundo sempre foi afetado por muitas pessoas iníquas e néscias (em palavras mais populares, desculpe-me a expressão, "grandes idiotas"), que causaram (e causam) inúmeras tristezas à humanidade, desde um Hitler até um João da Padaria que matou fulano ou beltrano por um preconceito ou banalidade qualquer.

Foi nesse contexto que escrevi aquela frase sobre a "idiotice do mundo" (claro, poderia ter usado eufemismos ou palavras como "a iniquidade,  a torpeza ou a perfídia do mundo" etc). Usei uma expressão que pode soar ríspida, é verdade, mas o que considero "a idiotice do mundo" é esta tendenciosa soma de ódios, preconceitos, intolerâncias, hipocrisias, desrespeitos e desconsiderações às características de cada ser humano.

A ignorância pode ser relativa, assim como a idiotice ? É claro. Cada um tem seus conceitos. Na minha opinião, (e essa é apenas uma opinião, por óbvio), ignorância é uma das bases do desrespeito. Ignorar o outro pode ser entendido na perspectiva de não enxergar o outro como ser humano.  E, posso até estar equivocada, mas "idiotice" é não saber respeitar as pessoas, como se todos devessem seguir um padrão ditatorial de qualquer coisa, seja no âmbito estético, político, social ou econômico. As pessoas são múltiplas e, por conseguinte, são múltiplos os seus modos de ser e de pensar.

Enfim, agradeço ao leitor Internalta pelas suas críticas. Todas as ideias, sugestões, críticas e análises são bem-vindas.

Criticar é um direito do leitor (ou de qualquer pessoa). Rebater críticas sobre seu texto é um direito de quem escreve, obviamente. E esse debate é importante para a construção do conhecimento. Portanto, não precisamos levar nada para um lado muito pessoal. Com educação e cautela, todas as críticas são bem - vindas, isso faz parte da literatura.


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Juliana Silva Valis
Enviado por Juliana Silva Valis em 03/07/2010
Alterado em 05/07/2010
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